Uma noite de guerra

– Papai o senhor viu o Carlinhos? – perguntou Sophia.
– Deve estar brincando no quintal.
 Os meus 76 anos não dão mais conta de acompanhar esse seu filho.
– Pai, ele tem apenas 8 anos, é normal ser ativo. Venha, vou te fazer um chá.
– Ótimo, já estou sentindo minhas mãos começarem a congelar com esse inverno que nunca acaba.
Enquanto Sophia fazia o chá, Erik a admirava.
– Você é tão parecida com a sua mãe. – Disse.
– O senhor sempre diz isso.
– Ontem achei isso no meio das minhas bagunças. Gostaria que ficasse com ela.
De forma lenta, Erik retira do bolso uma foto em preto e branco, um pouco maior que uma ¾.
– É a mamãe? – Sophia pergunta.
– Sim, foi essa foto que ela me entregou quando nos conhecemos.
Sophia vira a foto e lê a dedicatória escrita com uma caligrafia impecável.
“Nunca pensei que a Guerra poderia trazer algo bom, mas ela me trouxe você. Estarei te esperando no número 40 da fifteenth street, Nova Iorque. Com amor Margareth Montez”.
– Ainda não consigo acreditar que vocês se conheceram em plena Segunda Guerra Mundial. – disse Sophia.
– Estava tão frio quanto o dia de hoje. – Erik começou a contar. – Sua mãe era uma enfermeira dos Aliados, enquanto eu era uma mísero mensageiro do Eixo.
“Faltava cinco meses para a guerra acabar e eu já havia visto tanta coisa que nada mais me surpreendia.
Eu estava indo entregar a minha última mensagem, queria desistir de tudo aquilo, aqueles não eram meus ideais, eu não concordava com aquilo, mas era obrigado a aceitar.
Quando se está em guerra nenhum caminho é seguro, então eu estava sempre passando por lugares que hoje nem devem mais existir. A não ser a caverna em que sua mãe e eu nos conhecemos.
Naquela manhã eu caminhava por uma montanha um tanto rochosa e cheia de árvores, quando escorreguei em uma pedra e fui rolando montanha a baixo até que parei em uma árvore. Bati com a cabeça e desmaiei.
Quando acordei horas depois lá estava a sua mãe, tão linda com o seu vestido branco de enfermagem.
Ela havia me encontrado e me arrastado até aquela caverna.
Confesso que tive medo de que ela pudesse me matar, afinal estávamos de lados opostos da guerra. Mas eu estava enganado. Sua mãe se mostrou tão meiga e disposta a cuidar dos machucados que adquiri durante a queda.
Nós conversamos, conversamos e víamos o quanto tínhamos em comum. Eu só conseguia pensar que ou estava ficando louco ou estava apaixonado por ela em tão pouco tempo.
Com o cair da tarde foi ficando mais frio e a fogueira que sua mãe havia feito não estava dando conta de nos aquecer. Eu a chamei para se sentar ao meu lado e passei o meu braço em seus ombros para aquece-la.
Foi nessa noite que sua mãe e eu nos amamos pela primeira e última vez.”
– Está querendo dizer que o senhor e a mamãe nunca mais estiveram juntos? – Sophia não acreditava em que ouviu.
 – Logo você irá entender.
“Sua mãe foi a melhor mulher que já tive em meus braços. Foi uma noite intensa e apaixonada, nos amamos como se não estivéssemos em guerra.
Pela manhã o sol estava alto e me sentia bem para continuar minha viagem. Quis levar sua mãe comigo, mas ela recusou, seria a nossa morte se alguém nos visse juntos.
Ela estava indo na direção oposta da minha, mas disse que nunca deixaria de pensar em mim e que quando a guerra acabasse estaria me esperando, foi quando ela me deu essa foto e partiu.
Quando a guerra acabou não pensei duas vezes. Parti atrás de sua mãe, rezava pra que ela tivesse sobrevivido e ainda me esperasse.
Quando cheguei ao endereço da foto lá estava ela sentada em uma varanda. Tão linda com um vestido amarelo e óculos de leitura, ela estava lendo pra você que estava dentro da barriga dela.
Assim que a vi sabia que nossa noite de amor naquela caverna tinha te gerado. Ela chorava de alegria, pois também não sabia se eu havia sobrevivido.

Nos casamos alguns dias depois. Foram dias maravilhosos ao lado dela. Não nos amamos como homem e mulher, pois a gravidez era de risco, mas a cada dia nos amávamos mais como almas gêmeas.

Você nasceu no tempo certo, tão linda quanto a sua mãe.”
– E logo depois ela morreu. – disse Sophia com os olhos cheios de lágrimas.
– Sua mãe estava bastante debilitada devido a guerra, três dias depois do seu nascimento ela se foi.
“Sua mãe nos deixou, mas sinto que a cada dia estou mais perto dela”
– Não diga besteiras papai, o senhor está saudável e forte, irá viver mais alguns anos.
Naquela noite sentado em frente a lareira enquanto sorria, Erik partiu em encontro a sua Margareth. Sem dor, sem sofrimento e sem arrependimentos, simplesmente direto para os braços da sua amada.
Escrito por: Rosângela Tomas

19 comentários em “Uma noite de guerra

  1. Achei essa sinopse super interessante, um casal imperfeito, porém muito próximo da realidade. Afinal ninguém é perfeito, mas cada um tem uma beleza, à sua maneira. Gostei muito da determinação da protagonista e o casal é carismático!

  2. Adorei o conto.
    Tão romântico e “educado”. Bem, uma pena que não termina bem do jeito que esperava, mas mostra, sobretudo, o poder e a força eterna do amor.
    Lindo mesmo, parabéns.

  3. Que conto lindo e intenso. Gostei da forma em que você conseguiu passar tantas emoções em um conto tão curto, porém muito cativante! Adorei muito!

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