Se descobrir em si

Hoje eu descobri o quanto estamos perdidos nesse mundo buscando algo que não sabemos o que é.

Vivemos constantemente a mercê do acaso, do destino, dá coincidência ou do que quer que seja.

Eu não sabia que no fundo o que eu buscava era ser feliz. Não precisava de muito. Mas eu acabei ganhando tudo.

– Parabéns senhorita Isabella, você está grávida de dois meses. – disse o médico.

Eu apenas sorri sem saber o que dizer.

Há um ano eu não imaginava isso. Há um ano eu era apenas uma desempregada recém formada em História, que resolveu gastar todo o dinheiro que tinha rodando o mundo.

Já que eu não havia conseguido um emprego para ter uma boa carreira como eu havia sonhado, nada como procurar algo pelo mundo.

Peguei um vôo de São Paulo para Espanha, onde tive momentos maravilhosos.

Eu ia de cidade em cidade caminhando pelas estradas aproveitando a paisagem. Às vezes acampava para dormir ou pagava algum albergue baratinho.

Muitas vezes para comer oferecia serviços. Cheguei a lavar carros, aparar grama e até mesmo limpar algumas gôndolas que atravessavam os canais de Veneza.

Conheci muitas pessoas boas pelo caminho. Mas parecia que em nenhum lugar eu encontrava o que eu estava procurando.

Me lembro que em Coimbra, Portugal, conheci uma senhora, Dona Matilde. Ela tinha uma pequena lanchonete e eu a ajudei a atender os seus clientes.

Em troca do meu serviço ela me deu uma hospedagem, comida e roupas lavadas. Na noite anterior a minha partida Dona Matilde me perguntou o que eu procurava e eu disse que não sabia.

Na Europa o Teatro Epidauro na Grécia, ganhou como meu lugar favorito.

Quando cheguei à África não pude acreditar no que via. Tanta beleza, tanta cultura e tanta tristeza.

Lugares que eu passava eu imaginava estar no paraíso. No entanto, em outros eu queria desistir de tudo e voltar pra casa. Era inacreditável tanta riqueza e tanta pobreza no meu lugar.

Adorei visitar o Egito, mas confesso que fui fraca e covarde, pois evitei lugares mais pobres, ficando grande parte do tempo na Etiópia, onde fiquei encantada com o Vale do Rift e toda a agricultura do país.

De lá parti para Índia, onde tive um maravilhoso choque cultural e bastantes problemas com a comida meio adocicada e forte em especiarias.

Quando voltei para a América, meu destino foi o Canadá. Na minha primeira noite em Toronto, resolvi ir jantar em uma pequena lanchonete.

O lugar estava cheio, a moça no balcão me disse que se eu quisesse podia esperar.

– Ou se sentar comigo. – um rapaz alto e moreno me disse da sua mesa que ficava próxima ao balcão. – Estou jantando sozinho e aqui na minha mesa ainda tem espaço se não se importar em ter companhia.

Aceitei a oferta, e enquanto esperava meu prato descobri que o rapaz era do México se chamava Eduardo Luiz e era médico.

– Estou aqui há três anos é um ótimo lugar para se morar.

– E eu estou viajando há quase um ano.

– Uau, rodando pelo Mundo?

– No começo eu pensava que sim, mas depois vi que faltaram muitos países para de fato ser uma viajem pelo Mundo. – rimos.

– Você já conhecia o Canadá?

– Na verdade eu nunca nem tinha saído de São Paulo quando resolvi fazer essa viagem.

– Se quiser posso ser seu guia por Toronto.

– Seria ótimo.

Eduardo acabou sendo mais do que meu guia por Toronto, foi meu guia por todo o Canadá. Fomos a lugares que nem mesmo ele conhecia, como Vancouver e a cidade de Dawson.

Ensinei a Eduardo minha técnica de conhecer cidades evitando usar transportes. Algo que ele detestou, pois não gostava de caminhadas.

Como ele estava de férias resolvemos fazer uma loucura e fomos para o Alasca. Eu detesto o frio.

Talvez ali tenha acontecido o melhor erro da minha vida.

Estávamos em um chalé em Koyuk quando uma nevasca nos deixou presos por quatro dias.

Foi quando nos envolvemos, Edu era um amante maravilhoso, foram os melhores quatro dias de toda a minha viagem. Eu fiquei com outros caras pelo mundo, mas nada além de alguns beijos. Com Edu foi mais intenso, mais gostoso e mais verdadeiro.

Assim que a neve diminuiu tivemos que ir.

– Tem certeza que não podemos ficar mais alguns dias? – ele perguntava.

– Tenho, eu preciso continuar minha viagem e você voltar a trabalhar.

Era visível o seu desapontamento, mas eu não queria me envolver sentimentalmente com um cara que morava a países de distância, na verdade eu estava em uma fase da minha vida que eu não queria me envolver com ninguém. Assim que chegamos ao aeroporto achei melhor encerrar tudo por ali.

– Edu eu não vou voltar com você para Toronto.

– Por que não? – ele parecia realmente decepcionado.

– Eu preciso continuar minha viagem e você tem sua vida e seu emprego.

– Você poderia se mudar para Toronto tenho certeza que vai gostar.

– Também tenho certeza, mas eu ainda não encontrei o que eu procuro.

– Mas você nem sabe o que procura, talvez não tenha nada para você achar. – ele começava a trocar o ar chateado pelo bravo.

– Edu é melhor assim para nós dois, eu vou pegar um vôo para algum lugar e você para o Canadá. – eu menti.

– Tudo bem, mas se eu for para o Brasil um dia eu posso te procurar?

– Claro. – eu gostaria de vê-lo novamente então dei a ele meu endereço em Americanas, interior de São Paulo. – Se eu voltar para o Canadá eu te procuro.

Nos despedimos com um abraço apertado e cada um foi para um lado.

Comprei uma passagem para o México, queria conhecer Mérida, uma cidade histórica onde Edu havia nascido. Fiquei pouco tempo lá, não conseguia mais ver sentido nessa viagem, então resolvi voltar pra casa.

Após voltar acrescentei ao meu currículo essa viagem pelo mundo.

Nunca imaginaria que o meu esbanjamento de dinheiro fosse me dar um novo emprego. Mas em poucos dias uma universidade de São Paulo havia me convidado para ser assistente de um professor de Relações Internacionais. Eu teria que me mudar de cidade, mas isso não seria problema já que eles pagavam muito bem.

Como estávamos em setembro eu me mudaria para São Paulo somente em janeiro, pois as aulas só começariam em fevereiro. No entanto, agora no final de outubro voltamos ao ponto inicial…

– Parabéns senhorita Isabella, você está grávida de dois meses. – disse o médico.

Saí do consultório com uma receita de vitaminas para comprar e uma alegria enorme em meu peito, eu seria mãe.

Assim que cheguei em casa corri pegar meu notebook. Quando deixei Portugal, Dona Matilde e eu combinamos de trocar emails. Toda vez que eu chegava a um lugar novo eu contava da experiência que havia tido no lugar anterior, ela sabia de tudo, inclusive do Edu e do meu novo emprego.

Querida Dona Matilde.

Agora que estou em casa finalmente eu encontrei o que eu procurava.

Eu fui a muitos lugares procurando um sentido, procurando algo que eu mesmo desconhecia, quando tudo o que eu precisava estava em mim o tempo todo, quer dizer não de fato estava em mim, mas seria em mim que eu encontraria.

Eu estou grávida, vou ter um filho.

A alegria que se encontra dentro de mim é enorme, não consigo acreditar, finalmente tenho um bom emprego e agora um filho, minha felicidade está completa.

Saudades.

Isabella.

Dona Matilde me respondeu algumas horas depois.

Querida Isa, as melhores coisas da vida nós encontramos sempre em nós mesmo.

Estou muito feliz por você e espero que o Eduardo também fique.

Você descobriu o que faltava em você.

Um abraço, Matilde.

Dona Matilde havia me dado um banho de água fria, eu tinha me esquecido totalmente de que Eduardo era o pai dessa criança, pra falar a verdade eu tinha me esquecido de que essa criança tinha um pai.

Eu não me importaria de criar um filho sozinha, porém Edu tinha todo o direito de saber que seria pai, mas como eu iria avisá-lo? Na pressa de ir embora eu apenas tinha lhe dado o meu endereço, não pedi seu telefone ou email, e não teria como eu voar até o Canadá para dizer que ele seria pai, eu não tinha mais dinheiro para isso.

Por enquanto resolvi deixar as coisas como estavam e continuar minha vida me preparando para a mudança.

Amanhã era 23 de dezembro e eu tinha uma consulta marcada para saber o sexo do bebê, minha barriga estava enorme, diria que estava de seis meses ao invés de quatro.

Já são quase seis da tarde quando a campainha toca.

Eu odiava o portão dessa casa, era impossível ver quem estava do lado de fora.

Abri apenas um pouquinho mostrando somente o meu rosto.

– Sabe quantas vezes eu me perdi até chegar aqui?

– Eduardo?

– Sim eu, o cara louco que saiu lá do rabo do Canadá atrás de uma mulher. Eu sei que você falou que seguiria a sua vida e que eu tinha que seguir a minha, mas não dá. Todos esses meses eu não tiro você da minha cabeça. Eu sei que isso é loucura, mas precisamos conversar.

– Sim precisamos. – término de abrir o portão revelando a ele a bola gigante que minha barriga havia se transformado.

Por um momento achei que ele fosse desmaiar ou sair correndo, pois toda a cor que havia em seu rosto tinha sumido completamente.

Peguei sua mão o puxando para dentro, ele parecia não ter controle do seu corpo, ia andando feito um zumbi, mas sem tirar os olhos da minha barriga.

Assim que entramos na sala ele me perguntou.

– Eu vou ser pai né?

– Vai sim.

– Então precisamos casar logo.

– O que? Não, você ficou maluco? Não é porque eu estou grávida que precisamos casar.

– Precisamos sim, eu gosto de você e nossa menininha não vai crescer com pais separados que moram em países diferentes.

– Primeiro, eu vou fazer o exame pra saber o sexo do bebê amanhã, segundo, que história é essa de que você gosta de mim?

– Eu sei que vai ser uma menina e sim eu estou louco por você e sei que também sente algo por mim, eu vi nos seus olhos quando nos despedimos. Eu gosto de você e você vai ter um filho meu e eu estou a ponto de explodir de emoção.

Antes que pudesse responder Eduardo veio em minha direção me enlaçado em um profundo beijo que abalou todas as minhas estruturas, eu com certeza também gostava dele e aquilo me assustava.

Assim que ele me soltou colocou suas mãos envolta da minha barriga e começou a beijá-la e falar feito um bocó com a criança que estava ali dentro.

Edu e eu saímos para jantar. Contei a ele sobre meu novo emprego o que acarretou em uma briga, pois como eu não estava disposta a ir para o Canadá ele queria se mudar comigo para São Paulo.

– Você tem uma carreira lá Eduardo.

– E posso construir uma carreira em São Paulo.

Quando voltamos a minha casa disse a ele que precisava pensar em tudo o que estava acontecendo.

– Parabéns papais é uma menina. – disse o médico.

Edu chorava, sorria e comemorava a cada sinal do bebê.

Quando escutava o coraçãozinho, quando via um borrão na tela do ultrassom ou quando o bebê chutava.

Depois de ver a felicidade dele aceitei irmos juntos para São Paulo. Não queria casar agora, disse apenas para morarmos juntos e deixarmos as coisas acontecerem.

– Você eu e a Madalena seremos muito felizes.

– Madalena? Gostei do nome. – disse sorrindo.

– Sabia que iria gostar. Mas me diga uma coisa, você descobriu o que procurava?

– Sim, eu procurava ser feliz e descobri que a felicidade agora está dentro de mim, graças a você.

 

Escrito por: Rosângela Tomas

9 comentários em “Se descobrir em si

  1. Caramba!!! Acho que assim é um ótimo jeito de começar a escrever aqui, já que fiquei de queixo caído.
    Eu amei o texto, me tocou de uma forma surpreendente. Sempre sonhamos que nossas vidas será melhor em outros países – e pode até ser – mas temos que encontrar a felicidade em nós. Para sermos felizes a dois, precisamos ser felizes sozinhos.

    Eu amei mesmo o texto.
    Um abraço.
    http://www.johanymedeirosutopia.blogspot.com.br

  2. Uau, que texto é esse? Foi você quem escreveu?
    Bom, não sei o que dizer, mas fiquei surpreendida, pois esse texto, me fez refletir de um filme “a busca da felicidade”, onde tem uma frase bem esclarecida “nunca deixe alguém dizer que você não pode fazer alguma coisa. Se você tem um sonho, tem que correr atrás dele. As pessoas não conseguem vencer e, dizem que você também não vai vencer. Se quer alguma coisa, corre atrás”.

  3. Foi preciso ela rodar o mundo pra fazer brotar a felicidade dentro de si. Amei o texto, tem um final bonito e faz refletir. Às vezes procuramos tanto e a felicidade está bem pertinho, bem ao nosso alcance

  4. Oi Rosângela. O quanto sou sonhadora em imaginar e desejar que essa história tenha, de fato, acontecido?! Acho que muitas vezes podemos estar procurando por algo e esse algo ser o que menos esperávamos e que surgem quando menos estávamos preparadas. Acredito no amor, acredito num encontro de almas, acredito que podemos ser nós mesmos e encontrarmos uma outra parte nossa em outra pessoa.
    Amei muito seu texto. Beijos.

    https://almde50tons.wordpress.com/

  5. Que texto lindo. Realmente, a felicidade está nas coisas pequenas, nós passamos a vida procurando ser feliz, mas ela não é uma coisa que a gente simplesmente encontra, a felicidade está em todos os lugares, basta nós a percebemos.

  6. Amei o texto, amei mais ainda a lição de moral dele. Nós temos que entender o quanto antes que a felicidade não está nas coisas ou nas outras pessoas, a felicidade está em nós.

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