A última carta

Era mais um dia comum na vida de Beth, lá estava ela cuidando do jardim nos fundos da casa quando a campainha tocou.

A porta com detalhes em vidro lhe permitia ver que quem estava do outro lado era um soldado.

Será que era o seu soldado?

Há três anos Beth esperava Mackenzie retornar da guerra. Beth e Mack haviam se conhecido ainda no primário. O garoto que quando criança tinha diversas sardas pelo rosto, assim que cresceu passou a desfilar pela cidade com uma impecável barba ruiva que cobria parte do seu rosto. Enquanto Beth que antes corria pelas ruas com várias trancinhas pela cabeça, hoje possuía um exuberante cabelo cacheado que caía lindamente em seus ombros negros.

Assim que abriu a porta sentiu seu coração se despedaçar, o soldado que ali estava não era seu Mack.

– Elizabeth? – perguntou o homem.

– Sim, e você quem é?

– Me chamo George, lutei na Guerra ao lado de Mack durante todos esses três anos. Podemos conversar?

Sem responder Beth deu passagem para que o homem pudesse entrar.

– Sente-se. Aceita uma água ou um suco? – ofereceu.

– Não obrigado, prometo ser breve.

Beth sentou-se de frente para George e esperou que ele começasse a falar.

– Eu conheci o Mack no meu primeiro dia do exército, ele sentou ao meu lado no ônibus que iria nos levar para a zona de combate. Desde então sempre fomos muito amigos. Por diversas vezes ele salvou a minha vida e eu salvei a dele.

Beth não se surpreendia com aquelas palavras, não esperava menos do seu amado.

Mack sempre foi uma pessoa bondosa, ela nunca se esqueceria da vez em que ele entrou na frente de uma moto para salvar um filhotinho de pardal que havia caído de uma árvore. Seu ato heroico lhe rendeu três dedos da mão quebrados e vários arranhões, mas ele sempre dizia que se machucaria muito mais para salvar qualquer vida.

– Quando as coisas começaram a ficar complicadas, Mack escreveu uma carta e me fez jurar que eu não morreria, pois tinha que entregar essa carta a você. – George lhe entregou um envelope sujo e amassado, era nítido que ele o carregava a bastante tempo.

Logo no envelope ela já podia ver a caligrafia garranchada dele.

E ao abrir o envelope lá estava mais de sua letra.

Querida Beth, minha doce Elizabeth, palavras são poucas pra dizer o quanto eu sinto a sua falta.

Se você está lendo isso significa que o bastardo do George não morreu, graças a Deus, ele é um amigo incrível, se hoje eu posso escrever essa carta, é graças a ele, graças a todas as vezes que ele me salvou.

A guerra não é nada fácil, pior do que a dor causada pelos ferimentos, é dor de todos os dias perder um amigo, soldados que assim como eu, possuíam família, amigos e uma linda garota esperando a nossa volta. Óbvio que nenhum deles possuía uma garota tão linda quanto a minha.

Pensar no seu sorriso é o que faz meu dia se iluminar, lembrar dos seus olhos é o que me dá esperança de que eu sairei vivo de tudo isso aqui.

Elizabeth não conseguia mais se segurar e se derramava em lágrimas ao imaginar a perda do seu amor.

Seu choro era tão intenso que chegava a partir o coração do soldado que estava ao seu lado.

Minha Beth, mesmo que eu não saia daqui com vida, quero que saiba que sempre te amei. Quando éramos crianças e eu puxava o seu cabelo eu já te amava, e pretendo amar até o meu último suspiro.

Mesmo que não em carne e osso, eu sempre estarei contigo para todo o sempre.

Eu sei que deveria ter feito antes, mas você sabe, eu sempre fui meio tolo, agora espero que não seja tarde para isso, então, Elizabeth, aceita se casar comigo?

Com amor Mackenzie

Elizabeth chorava tanto que nem percebeu estar usando o ombro do soldado George como apoio para amparar as suas lágrimas. Ele se sentia demasiadamente incomodado com aquela situação, enquanto ela sentia o seu coração doer tanto como se tivesse sido arrancado de seu peito.

– Como foi?

– Como foi o que? – perguntou George sem entender.

– Como foi que ele morreu?

Antes que deixasse a raiva lhe consumir, George se levantou e pediu que ela esperasse.

Beth ficou vendo ele se afastar e passar pela porta rumo a rua.

Antes que ela pudesse alcançá-lo George já estava de volta à sua porta trazendo consigo Mackenzie arrastado pelo colarinho.

-Este bastardo não morreu, está bem vivo, só um pouco machucado. – disse George ao arremessar Mack para próximo de Beth. – Ele escreveu essa carta há mais de um ano pensando que poderia morrer, mas não morreu, no entanto continuou com essa ideia maluca de te entregar essa carta.

-Desculpa a brincadeira querida, mas você sabe que eu sempre gostei de te pregar uma peça. Então meu amor, aceita se casar comigo?

-Eu quero te matar seu bastardo. – disse Beth, chorando dessa vez de raiva.

-Não quer nada, você não suporta viver sem mim, do mesmo modo que eu não suporto viver sem você. Eu vou perguntar pela terceira vez, e pelo amor de Deus Elizabeth dessa vez me responda, porque eu já estou a ponto de ter um treco. Você aceita se casar comigo? – dessa vez Mack se ajoelhou e tirou um pequeno anel do bolso de trás. – Eu sei que você merecia coisa melhor, mas eu acabei de voltar da guerra, não deu pra conseguir coisa melhor. – brincou Mack.

– A melhor coisa que eu poderia merecer é ter você meu amor, sim eu aceito me casar com você.

George sorrateiramente foi se afastando até estar fora da casa, deixando o jovem casal matando a saudade de três anos de distância.

Escrito por: Rosângela Carvalho

10 comentários em “A última carta

  1. AAAAAAAAI MEU DEUS!
    Eu já tava em lágrimas, achando que ele tinha morrido e ele me apronta uma dessas haha
    Antes de Beth aceitar casar, tinha que dar uns tapas nele haha.
    Amei amei essa história e que a tristeza da guerra fique pra trás e o casal seja feliz pra sempre. É isso que desejamos para os personagens queridos que nos deparamos, não é?! Lindo lindo! Parabéns. Beijos
    https://almde50tons.wordpress.com

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