Aos olhos de uma mãe

Aos olhos de uma mãe todo filho é perfeito, para nós não há nada de errado com os nossos pequenos.

Todos os dias em que olho para a minha Laura de 8 anos me lembro de quando ela nasceu:

Eu já estava tendo contrações o dia todo e estava há mais de 8 horas em trabalho de parto, mas nada da minha pequena levada sair. Quando o relógio da sala de cirurgias apontou 5 horas da manhã e eu já estava beirando 11 horas de trabalho de parto, o médico resolveu que uma cesária já estava mais do que na hora de ser feita.

Rapidamente eles a tiraram de mim, algo que na hora me deu uma sensação de vazio, até que eu a vi nas mãos do meu obstetra, tão pequena, tão sujinha.

No entanto algo me alertou, ela não chorava, o médico deu um tapinha e nada, deu outro tapa mais forte e ela continuava quieta, o desespero foi tomando conta de mim, ela precisava chorar. Quando o médico resolveu lhe dar um terceiro tapa ela finalmente abriu o berreiro, fazendo dele o som mais lindo que ouvi na minha vida, enquanto seu choro preenchia a sala minhas lágrimas banhavam meu rosto.

Uma enfermeira a trouxe perto de mim, e eu olhei aquele pequeno rostinho vermelho ainda com os olhinhos fechados e a única coisa que eu consegui dizer foi “ela é perfeita”. Na hora eu não me toquei que ao dizer isso a enfermeira me olhou estranho, e logo levou minha bebê para realizar os exames de rotina.

Depois de um tempo que eu já estava estabilizada e bem instalada no meu quarto, a mesma enfermeira (Julia) que me mostrou minha pequena quando ela nasceu, entrou no quarto com ela nos braços.

Um arrepio de felicidade percorreu todo o meu corpo assim que a peguei nos braços.

Seguindo as recomendações da Julia, ofereci o peito para que ela se alimentasse. Confesso que suas primeiras sugadas fortes e desajeitas doeram, mas eu tinha que encarar aquilo, a dor seria temporária e minha filha necessitava disso.

Enquanto ela mamava eu verificava cada pedacinho do seu corpo, cinco dedinhos em cada mão e em cada pé, um narizinho redondinho, duas orelinhas onde eu já imaginava um par de brinquinhos de pérolas e meia dúzia de fiozinhos de cabelos, como eu disse ela era perfeita.

– Os exames dela deram normais? Não há nada de errado com a minha filha né? – perguntei a Julia que ainda estava no quarto.

– Logo o Doutor Fernando virá falar com a senhora. – respondeu e me lançou um sorriso seco e um tanto forçado.

– O que você está escondendo de mim? – perguntei a Julia que engoliu seco e muito sem graça me respondeu.

– Senhora não estou lhe escondendo nada, a senhora pode ver que sua filha tem uma condição especial, mas o médico logo virá explicar.

Condição especial? Como assim?

Antes que eu pudesse voltar a questioná-la, o médico que fez meu parto entra no quarto.

– Olá, como estão as duas garotas me fizeram ficar acordado a noite toda? – perguntou brincalhão.

– Estamos bem. – respondi, mas não pude disfarçar a minha ansiedade. – Doutor, tem algo de errado com a minha filha? Os exames dela apresentaram algum tipo de alteração.

O médico pareceu surpreso com a minha pergunta tão direta, mas logo voltou a assumir o seu lado profissional e me respondeu.

– Bom, como a senhora pode ver, a sua filha apresenta uma condição especial um tanto comum, mas o res… – antes que ele pudesse continuar eu o interrompi.

– Que condição especial? Minha filha é perfeita, olhe pra ela doutor, não há nada de errado com ela.

– Então Mariana, posso lhe chamar apenas pelo primeiro nome, né? – Apenas assenti que sim – Pois bem Mariana, a sua filha apresenta uma condição genética que nós chamamos de trissomia do cromossomo 21, mais conhecida como Síndrome de Down.

Se eu levei um baque? Sim, eu levei, eu olhava para o pequeno ser em meu braço e não enxergava nada além de uma menininha perfeita.

– Mas eu não vejo nada de errado nela doutor, era para eu perceber, não?

– Os traços dela ainda são muito pequenos, o que pode estar te impedindo de notar as características das pessoas que apresentam essa condição.

Com muito cuidado e delicadeza o médico foi me apontando os pequenos traços da minha bebê onde era possível perceber que ela apresentava Síndrome de Down. Ele também me explicou, que a síndrome não é considerada uma doença e que minha filha crescesse saudável igual às outras crianças.

Quando questionei o que fiz de errado durante a gravidez, ele me disse que nada, nada do que eu fizesse ou deixasse de fazer, iria mudar a condição da minha pequena Laura.

Mais tarde enquanto refletia sozinha no quarto, meu marido finalmente apareceu. Por ser caminhoneiro ele estava na estrada quando entrei em trabalho de parto.

Após me abraçar e perguntar como eu estava, ele disse que já havia visto a nossa filha.

– E você notou a condição dela? – perguntei.

-Huumm, ela tem Síndrome de Down, mas é tão lindinha que particularmente não dei muita atenção a isso.  – soltou um pequeno riso.

– Eu não percebi Otávio, eu estava com ela nos braços e não percebi. – aquilo estava me consumindo.

– Talvez você não tenha percebido porque aos olhos de uma mãe todo filho é perfeito. – disse calmamente enquanto dava de ombros.

Foi ali, a primeira vez em que ouvi essa frase, “aos olhos de uma mãe todo filho é perfeito”, e é assim até hoje, toda vez que olho para a minha pequena Laura vejo o quanto ela é perfeita.

Todas as vezes que vamos ao parquinho que fica no final da nossa rua, Laura faz coisas que as outras crianças também fazem, ela se pendurar nas árvores, escala os brinquedos, rala os joelhos e se diverte muito.

Já perdi as contas de quantas vezes as outras mães vieram me questionar, se era seguro eu deixar que ela brincasse dessa maneira.

– Claro que sim, e porque não seria?

E era sempre nessas horas que elas ficavam sem graça. Eu ficava esperando que elas falassem na minha cara que minha tinha uma doença ou que não era capaz, porque era exatamente isso que a maioria pensava, mas nenhuma delas tinha coragem, elas apenas dizem: “é que ela é mais frágil do que as outras crianças” e eu respondia, “não, ela não é mais frágil, ela pode ralar o joelho do mesmo que jeito o seu filho também pode, ela é saudável e perfeita, então pode brincar à vontade”.

Eu não era idiota, sabia a condição da minha filha requer atenção, mas pra que privá-la de ser feliz? De brincar como as outras crianças? De explorar o mundo e aprender com ele?

Laura não estuda em uma escola para crianças especiais, estuda em uma escola normal, pois ela é tão capaz quanto as outras crianças.

Hoje foi dia das mães e a escolinha montou uma apresentação em nossa homenagem.  Laura estava radiante com sua fantasia de girassol e dançou lindamente com as outras crianças, que também trajavam fantasias de flores.

Ao final cada uma delas recitou um pequeno poema escrito por elas com a ajuda da professora. Quando chegou a vez da minha pequena meu coração bateu forte, forte que nem galope de cavalo.

“Mamãe me dá bom dia

Mamãe é gente fina.

Ela me faz feliz e diz que me ama

Quando é de noite, mamãe me coloca na cama”

O poema pode até ter sido simples pra você, mas pra mim foi perfeito, igual a minha filha.

 

Escrito por: Rosângela Carvalho

dw12

Deixe uma resposta