Apenas um café

E naquela noite, chovia torrencialmente – daquelas noites que pedem cobertas e Netflix mesmo para a mais baladeira das pessoas. Mas a semana tinha sido pesada (mentira, o mês tinha sido pesado) e eu precisava de calmaria. Netflix e cobertas são uma ótima distração, mas quando a série acaba você volta para seu próprio caos. Precisava de mais que isso.

Um dia, uma amiga me falou sobre um personagem que dizia “manhãs são para café e contemplação”. Para mim, noites de caos são para café e contemplação – afinal, minha velha amiga insônia não tem ciúmes do café, adora um ménage com ele.

Logo, estava eu, em plena noite de sexta, 10h da noite pagando meu lindo e delicioso café mocha gigante. Sentei no sofá do café de caderno e caneta em mãos fazendo uma retro desses dias. Escrevi numa folha palavras e frases soltas num tipo de brainstorming introvertido para assimilar tudo o que ocorreu, tudo o que eu sentia.

Parei para bebericar meu café e dei uma olhada pelo lugar – adoro imaginar como pode ser a vida das pessoas a meu redor. Voltei a escrever deixando meu inconsciente também falar e quando parecia que todo aquele caos havia saído de mim, fui ler o que escrevi e me espantei.

Entre palavras como projetos, música, stress, café, viagem, pessoas, trabalho, abraçar o mundo, gato, Scrum, desenho… Havia algumas que destoavam do resto: moça, guarda-chuva de caveira, cabelo molhado, olhar.

Estava tão distraída que vi uma moça e nem percebi que ela me marcou. Quando percebi, ela estava na minha frente dizendo algo que não entendi:

– O quê você disse?

– Desculpa, não queria atrapalhar, só queria perguntar onde você pegou o açúcar… Não encontrei.

– Sorry, não sei onde tem. Bebo sem açúcar.

– Você sabia que pessoas que bebem café sem açúcar têm maior tendência a serem psicopatas?

– Se for verdade acho que não seria uma boa decisão me contar, certo? – Disse sorrindo

– Posso dividir o sofá com você? Está meio cheio aqui… Mas juro que não vou atrapalhar.

Acho que fiquei vermelha – afinal tinha acabado de perceber que ela invadiu meus pensamentos, mas consenti com a cabeça fechando rápido o caderno para ela não ver (e não me achar uma psicopata).

Conversa vai, conversa vem e vi que ela estava bebendo o café sem açúcar – o que me deixou feliz, ela veio para falar comigo usando o açúcar apenas como pretexto. Mas como nada que é bom dura para sempre, já era quase meia-noite quando eu disse:

– Tenho que ir…

– Vai virar abóbora meia-noite? – Ela disse com um sorriso doce

– Desculpe, a gente se vê?

– Claro…

Eu a vi desmanchar neste momento o sorriso e pensei: que beleza ein, fiquei aqui a noite toda e nem tive coragem de pedir seu número. Ou marcar um rolê. Idiota, idiota… Mas agora não dá mais tempo.

Nos beijamos na bochecha como despedida e eu sabia que daquele dia em diante sempre estaria naquele café, em busca dela.

Escrito por: Bárbara Dias

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4 comentários em “Apenas um café

  1. ai que fofo! Fiquei de coração quentinho com esse texto.
    Acho muito fofo quando alguém se apaixona em um café. é tão poético né?! Enquanto eu estava flertando com a minha mulher, eu sempre chama ela pra tomar café, mas ela tomava chá, que é sempre poético também.

    Parabéns pelo talento! ❤

  2. Oi Bárbara, tudo bem?

    Simplesmente ameu esse conto, pois ele traz muitas sensações boas e aquele quentinho para o coração, sabe?! Foi como se eu estivesse dentro dele, visualizando a cena. Adorei essa ideia de quem bebe café sem açúcar é “psicopata” hahaha. O final me agradou por exatamente ser algo “aberto” e a personagem ter a certeza de que voltaria aquele lugar, apenas para ver se reencontrava a moça. Realmente devemos perder essa vergonha e fazer o que queremos no momento, talvez não haja outras oportunidades. Adorei, parabéns!

    Beijos!

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