DIVE WEB

Distopia Real

O nosso primeiro encontro há três meses parecia ter sido ontem, cada detalhe permanecia como novo em minha mente. 

Estávamos em dezembro de 2020 e eu caminhava para o meu consultório dentário, que ficava uns dois quilômetros da minha casa. 

O uso de máscaras não me incomodava, afinal de contas eu as utilizava todos os dias em meu serviço, então  apenas tive que expandir esse uso para o resto do meu dia. 

Antes meus pacientes chegavam, deitavam na cadeira e eu começava os procedimentos. Hoje, para fazer uma simples avaliação era preciso apresentar um exame de não contaminado, essa era a lei para quase tudo, ir ao dentista, a esteticista, ao barzinho ou restaurante, até mesmo para irmos ao médico tínhamos que apresentar um exame de que não tínhamos o vírus. Andar com o resultado no bolso como se fosse um documento foi à única forma que as autoridades encontraram de frear os contágios, já que a maioria dos laboratórios pelo mundo dizia ser impossível encontrar uma vacina nos próximos dez anos. 

Tínhamos que repetir o exame uma vez por mês e quem não andasse com ele era multado, e se o resultado fosse positivo e fossemos pegos fora de isolamento, as conseqüências eram muito piores. 

Eu estava quase chegando a um ponto de ônibus onde normalmente não tinha ninguém, no entanto nesse dia quente de dezembro lá estava ele com as mãos enfiadas nos bolsos da bermuda, o tênis skatista, uma camiseta preta com flores vermelhas, óculos de grau cujo aro parecia ser entalhado de madeira, e claro, o acessório principal, a máscara. 

Assim que fui me aproximando ele virou em minha direção e olhou bem no fundo dos meus olhos, olhos esses que estavam com a maquiagem bem definida, já que há certo tempo nossos olhos se tornaram a maior arma de sedução. Nada mais de bocas carnudas bem desenhadas ou bochechas rosadas, agora o que nós víamos eram sempre olhos bem marcados e maquiados, acompanhados de sobrancelhas impecáveis.

 Conforme nos encarávamos algo se acendeu dentro de nós e então rimos um para o outro, e foi ai que não vimos mais nada, pois assim como ele eu também usava óculos, e nossos bafos quentes fizeram o favor de quebrar o clima embaçando nossos óculos e impedindo que nos olhássemos. Passei por ele o mais rápido que puder, pois a situação havia me deixado constrangida. 

No outro dia lá estava ele, só que dessa vez ao invés de rir, ele apenas sorriu, como eu sei? O leve fechar dos olhos também era o novo sorriso dessa sociedade de face oculta. Eu sorri de volta e segui o meu caminho.  Trocamos sorrisos por uma semana, até que em uma sexta-feira eu estava quase me aproximando pronta para levemente fechar os olhos quando ele retirou os seus óculos e se aproximou de mim.

– Agora eu posso sorrir e falar com você sem perder a linda paisagem. – disse.

Eu que não esperava por aquela atitude dei uma leve risada e fiquei sem ver nada, até que suas mãos tocaram na lateral do meu rosto e retiraram os meus óculos. Confesso que fiquei com medo, afinal aproximações com estranhos não era mais algo comum, muito menos contato físico. 

– Calma, não precisa se preocupar, eu estou limpo. – afirmou. – O resultado do meu exame saiu ontem, deu negativo. Me chamo Isaac e você? 

– Marina. – respondi sorrindo novamente, só que dessa vez meus óculos não tamparam a minha visão já que os mesmos ainda estavam nas mãos dele, no entanto o que ele não imaginava era que o meu alto grau de miopia o deixava embaçado da mesma maneira. 

Conversamos alguns minutos até que o ônibus dele chegou e eu segui meu rumo. 

Os demais dias tinham sido iguais, nós conversávamos alguns minutos e cada um seguia o seu caminho. Após alguns dias trocamos números e finalmente depois de quase um mês eu iria vê-lo sem a máscara, por chamada de vídeo é claro. 

Isaac era lindo, seu sorriso branco como a neve me tiraram o ar, era o ponto fraco de toda dentista. Mas a nossa conversa que eu achei que seria romântica foi totalmente uma sessão de comédia, ele era animado e engraçado, o que me fez muito bem, pois desde que o mundo desandou eu não ria como antes. O ponto alto da nossa conversa foi quando ele revelou que ficou me encarando, pois tinha achado engraçado uma moça toda arrumadinha como eu estava, usando uma máscara de caveira.

Após vários encontros virtuais e encontros no ponto de ônibus, aqui estávamos nós caminhando lado a lado indo para um jantar romântico, seria a primeira vez que nos veríamos sem máscaras pessoalmente, e sim, eu estava nervosa. 

Chegamos ao restaurante onde Isaac tinha feito a reserva, algo que antes era comum apenas em restaurantes de luxo, hoje era obrigatório em qualquer um, até para irmos no Mc Donald’s precisávamos fazer reserva e enviar uma cópia do nosso exame. Sentamos na nossa mesa que ficava bem afastada das demais, e só após o garçom trazer o nosso pedido é que pudemos tirar as máscaras. Nossa noite finalmente tinha sido além de animada, uma noite romântica. Quando estávamos quase terminando a sobremesa Isaac pegou minha mão e então tirou do bolso da camisa uma pequena aliança, nada daquelas grossas e chamativas, mas sim uma fina e delicada, a aliança não estava na caixinha, apenas solta no bolso da camisa, não estranhei, pois no pouco tempo que o conhecia, Isaac tinha deixado claro o quanto era desligado e desleixado com alguns detalhes. 

Agora aqui estava eu, sentada no banco de trás de um taxi, de mãos dadas com o meu novo namorado indo em direção a casa dele e espero eu, que em direção ao novo amor da minha vida.

 

Escrito por: Rosângela Tomas

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