Oliver e Heloisa – Cartas de Natal durante a guerra

Natal de 1943 – parte 3

 

29 de Novembro de 1943

Querida Heloisa,

Finalmente chegamos ao Leste, aqui está mais calmo do que imaginávamos, não há nenhum sinal das tropas inimigas, mas creio que chegamos muito tarde, pois infelizmente não encontramos nenhum sobrevivente até o momento, somente corpos no meio dos escombros.

De todos os lugares que já passei em todos esses anos, ontem foi o pior deles. Nós encontramos uma biblioteca, ou melhor, o que sobrou dela. Enquanto vasculhávamos o local, Jerry encontrou o corpo de um garotinho, não devia ter mais do que oito anos, ele estava agarrado a um livro, parecia que ele queria protegê-lo. Aquilo mexeu com todo o pelotão, então cavamos uma cova e o enterramos junto com o seu livro. 

Heloisa eu temo pelo nosso pequeno, temo que essa guerra atinja vocês e que ele não possa crescer, temo que ele tenha o mesmo fim que aquele pobre garoto. Ontem à noite eu só conseguia pensar nos pais dele, será que estão vivos? Se sim, será que estão atrás do filho? Quantos filhos essa maldita guerra não deve ter levado de seus pais, eu só me pergunto quando isso vai acabar. 

Ainda não sei onde estaremos na noite de Natal, vamos desmontar o acampamento daqui dois dias e continuar mais ao Leste. 

Espero que você e nosso pequeno príncipe possam ter um ótimo Natal e que o Papai Noel não esqueça de que ter vocês ao meu lado, será o meu maior presente, pois cada dia que passa a saudade que sinto de vocês parece triplicar. 

Amo vocês, Oliver!

24 de Dezembro de 1943

Querido Oliver! 

Não consigo parar de chorar por causa do menininho que vocês encontraram. Estou escondida no sótão para que nosso pequeno não me veja assim, por vezes me escondo aqui quando a saudade que sinto de você resolve escorrer pelos meus olhos. Não quero que ele me veja sofrendo, pois sei que ficará tristinho também. Só de imaginar em perder o Pietro meu coração parece se comprimir com tanta dor. 

Apesar de ser véspera de Natal hoje até que tivemos um dia calmo preparando o pouco de comida que temos e improvisando alguns enfeites. A Dona Margô que mora na casa em frente sempre reclama que ficamos enfeitando a casa, pois pra ela é uma ofensa nós comemorarmos o Natal quando há tantas pessoas sofrendo. Eu discordo dela, acho que é no meio do caos que nós temos que ter mais fé e esperança, e nada como o Natal para trazer esse sentimento em nossos corações. 

Espero que seu Natal possa ser melhor do que nos outros anos, e que logo você volte para nós, pois esse também será o nosso maior presente. 

Nós te amos, Heloisa!

Escrito por: Rosângela Carvalho 

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