Oliver e Heloisa – Cartas de Natal durante a guerra

Final 

 

30 de Setembro de 1945

Já haviam se passado 28 dias desde que a guerra tinha acabado, muitos soldados já haviam retornado as suas casas. Heloisa esperava ansiosamente pelo retorno de Oliver. Desde as duas últimas cartas que trocaram em junho que ela não tinha mais notícias dele. 

O carteiro passou pontualmente às onze horas da manhã como fazia toda semana, Heloisa correu até a pequena caixa azul que ficava no quintal de sua casa. Entre as demais cartas de parentes lá estava um envelope maior com o carimbo das forças armadas. 

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28 de Setembro de 1945

Cara, senhorita Heloisa Aubry 

É com muito pesar que informamos que em meados do final de agosto o seu noivo senhor Oliver Benoit caiu de um barranco durante sua missão e fraturou a perna esquerda. 

A fratura foi exposta e o pelotão do senhor Benoit não tinha recursos suficientes para prestar os devidos socorros. Os soldados fizeram o que puderam com o pouco que tinham, no entanto o fato dele ter diabetes só complicou a situação, não dando tempo do helicóptero médico chegar. 

O senhor Oliver Benoit veio a falecer a noite de 04 de Setembro e o seu corpo acaba de chegar até a nossa base onde terá um enterro honrado juntamente com os demais soldados que vieram a falecer nos postos médicos. 

Informamos também que juntamente com essa carta se encontra uma carta que o senhor Benoit escreveu para a senhorita durante o seu leito de morte.

Nos colocamos a disposição para demais esclarecimentos e ajudas que a senhorita possa vir a precisar. 

Escritório das Forças Armadas

Heloísa não conseguia acreditar no que estava lendo e precisou se apoiar na cerca da casa, pois sentia que logo suas pernas iriam falhar. 

Com muito medo e cuidado abriu a carta de Oliver e começou a ler deixando as lágrimas banharem o seu rosto. 

 

03 de Setembro de 1945

Heloisa, meu amor!

Antes de tudo quero te pedir desculpas se a minha letra estiver muito ilegível, mas é que no momento me encontro um tremendo bagaço, você com certeza não teria se apaixonado por mim se me visse agora. 

A guerra finalmente acabou, os rapazes estão revezando entre arrumar as coisas para ir pra casa e cuidar de mim. Como você já deve saber eu vou pra casa, talvez não do jeito que você gostaria, mas eu estou voltando querida. Ano passado eu te disse que sentia que passaria o próximo Natal com vocês, e ai vou eu. Sinto não poder te dar um último beijo e nem poder dar o primeiro abraço em nosso menino, mas eu vou estar sempre ao lado de vocês, nos momentos bons e ruins. Lembre-se de que quando você precisar conversar eu estarei ao seu lado e que quando você estiver sorrindo eu estarei admirando o seu sorriso. Diga ao nosso pequeno que ele não precisa temer nada nessa vida, pois aonde ele for eu estarei lá para cuidar dele, fui promovido de pai a anjo da guarda. 

Querida, por favor, não chore, te conhecendo bem, e agora você deve estar me xingando em meio as suas lágrimas. Peço que não fique triste com a minha partida, mas sim feliz de que cumpri o meu dever. Eu estou feliz, pois sei que agora você e o Pietro estão em um mundo melhor, que não serão mais atingidos pela guerra, isso me conforta. 

Agora está chegando a minha hora, mas não se esqueça de olhar as estrelas na noite do dia 24 de Dezembro, pois eu estarei entre elas. 

Te amo como nunca amei ninguém nesse mundo, dê um beijo em nosso filho por mim.

Daquele que sempre te amará, Oliver!

Naquele dia Heloisa passou o dia na cama aos prantos, tinha pedido ao seu pai que contasse a Pietro sobre a morte de Oliver, pois se sentia incapaz de fazer isso. 

 

Dali em diante todos os dias pareceram os mesmos pra Heloisa, além de se arrastarem, ela havia entrado em uma rotina monótona onde não sabia mais quais eram os dias da semana. Os dias só pareceram mudar quando Heloísa foi à cerimônia de enterro de Oliver e nas duas vezes que foi visitar o seu tumulo. 

 

Quando o mês de Dezembro se iniciou, involuntariamente Heloisa sentiu uma vontade de fazer algo diferente e resolveu enfeitar a casa como fazia nos outros anos. Pietro a ajudou de maneira descontraída e animada, fazendo com que ela esquecesse por alguns segundos que ainda estava de luto. 

 

Na noite do dia 24 Heloisa se dirigiu até a varanda e se sentou em uma cadeira de balanço enquanto olhava as estrelas. 

 

– Mamãe você está olhando o papai? – perguntou Pietro. 

 

– Como? 

 

– O vovô disse que as pessoas que morrem vão para o céu e viram estrelas, meu pai é uma delas, você está olhando pra ele? 

 

– Estou sim querido. – disse enquanto colocava Pietro em seu colo. 

 

– Mas como você sabe qual delas é ele? 

 

– Eu não sei, só sei que ele está lá. 

 

– Então eu tenho que olhar pra todas as estrelas? Mas e as que estão muito longe? 

 

– Basta olhar apenas para as que estão perto de você, pois aqueles que amamos sempre ficam perto de nós. – respondeu com um sorriso sincero. 

 

– Uau, então o papai é uma estrela bem bonita, pois todas essas aqui são muito brilhantes. 

 

– Sim querido, ele é uma linda estrela! 

 

 

Escrito por: Rosângela Carvalho 

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