Sem querer, mãe

Eu achei que nunca precisaria ser mãe até o dia em que sem querer me tornei uma. 

No auge dos meus 33 anos eu me considerava uma mulher bem resolvida. Havia comprado meu apartamento aos 27 anos, tinha aberto minha pequena agência de publicidade aos 30, saia com os meus amigos todos os finais de semana e fazia o que eu queria e quando queria. 

Todos me perguntavam se eu não sentia falta de ter um marido ou uma família, e a resposta era bem clara pra mim, não, eu não sentia, pois na verdade eu nunca soube o que é ter uma família. 

Meus pais nunca foram casados, nem sequer foram namorados. Quando eu e minha irmã gêmea nascemos, nosso pai era casado com outra mulher, enquanto nossa mãe só queria curtir a vida. Meu pai disse que poderia ficar com uma das filhas, pois era o que a sua esposa tinha permitido, então, minha irmã ficou com a nossa mãe e eu fiquei com o nosso pai, e foi aí que começaram os piores 15 anos da minha vida. 

Me lembro que desde muito nova minha madrasta gritava comigo, muitas vezes sem eu ter feito nada eu apanhava, se não fazia as tarefas de casa direito, apanhava, se reclamava de algo, apanhava e assim foi até eu completar 15 anos e resolver sair de casa. 

Me mudei para a casa de uma tia em São José do Rio Preto, obviamente que não porque ela me amava como sobrinha, mas sim porque eu havia me oferecido para ser sua empregada. Ela precisava de alguém de confiança e eu precisava sair daquela casa horrível. 

Ao morar com a minha tia, eu tinha liberdade para sair e fazer o que eu quisesse e ainda recebia um salário pelos serviços prestados. Aos 18 anos eu já tinha juntado dinheiro o suficiente para sair da casa dela e morar sozinha. 

Se apagar essa parte do meu passado, até que eu tive uma vida boa, e essa vida passou a ter mais mudanças quando há um tempo atrás meu telefone tocou. 

– Alô!

– Senhorita Amanda Fernandes? 

– Sim, quem é?

– Me chamo Rodrigo Campos, sou conselheiro tutelar do Estado. A senhorita é irmã da senhorita Ana Fernandes, correto? 

– Sim, ela é minha gêmea, mas já adianto que não sei nada sobre a minha irmã. – Tudo aquilo me parecia muito estranho, pois nesses anos todos, minha irmã e eu nunca tínhamos nos vistos pessoalmente, acho que nunca tivemos vontade de nos conhecer. Há uns 10 anos ela havia me encontrado em uma rede social e então começamos a ter um pouco mais de contato, no entanto nossa aproximação não passava de mensagens com bons votos em datas comemorativas, ou quando a nossa mãe faleceu há 4 anos e ela havia me avisado para caso eu quisesse comparecer ao funeral, coisa que não fiz. 

– Senhorita Amanda, o motivo do meu contato é para comunicar que a sua irmã sofreu um acidente de carro e infelizmente ela e o marido não sobreviveram, eu sinto muito. 

Os minutos que fiquei em silêncio pareciam horas, até hoje não sei dizer o que senti, não consegui chorar, não senti dor, simplesmente não senti nada. 

– Senhorita Amanda? A senhorita está aí? 

– Sim, estou, desculpe-me. O senhor tem algo a mais a dizer?

– Sim, a sua sobrinha também estava no veículo no momento do acidente, felizmente ela não teve ferimentos graves e está internada apenas para observação. Como eu estava explicando, além de ligar para te dar essa fatídica notícia, preciso que a senhora venha assinar a papelada da tutela, pois como bem deve saber a senhora é a responsável legal pela criança. 

Eu era o que??? Eu nem sabia que tinha uma sobrinha. 

– O senhor há de me desculpar, mas eu não sabia que era a responsável. – preferi não mencionar que eu também não sabia da existência da criança. – Mas por que eu? 

– Esse era um desejo da sua irmã, apesar de jovens, ela e o marido se preocupavam muito com a filha e registraram em cartório uma declaração que caso qualquer coisa viesse a acontecer com ambos a tutela da pequena Isabelle era da senhorita. 

– Ok, entendo. – eu não sabia o que dizer. 

– Vou te passar o endereço do hospital, pois preciso que a senhorita me encontre ainda hoje para assinar a papelada e levar Isabelle contigo, ela receberá alta hoje. 

– Ok.

– E mais uma coisa, caso tenha interesse, o funeral da sua irmã ocorrerá daqui duas horas, caso queira se despedir. 

As horas que se seguiram foram estritamente mecânicas, eu apenas anotei os endereços, peguei minha bolsa e dirigi até o funeral. Sem reação, sem emoção e com uma única pergunta em minha mente, “QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI?”, para mim não era possível uma vida revirar tanto assim. 

Não fiquei muito tempo no funeral, não que tivesse receio de enterros, mas era como se eu estivesse vendo a mim mesma deitada naquele caixão. Se fossemos próximas, com certeza poderíamos enganar muitas pessoas trocando de lugar, pois realmente éramos idênticas. 

Assim que cheguei ao hospital fui até o consultório do médico que estava me aguardando juntamente com o assistente social. Após longas horas ouvindo e lendo toda a burocracia que era ser tutora de uma criança e todas as recomendações médicas para os cuidados de uma bebê de um ano de três meses, finalmente fui ao encontro da minha sobrinha. 

Assim que entrei no quarto número 9 da ala infantil lá estava ela, uma pequena menininha de ralos cabelos pretos e pele morena brincando com alguns ursinhos em cima da cama. 

– Olha quem chegou. – disse à enfermeira que fazia companhia a ela.

Assim que me olhou Isabelle sorriu e disse:

– Mama!

Sim, mama, ou seja, mamãe. Meu coração que até aquele momento parecia um grande iceberg dentro do meu peito, começou a derreter e pulsar sangue para todo meu corpo, senti meus olhos marejarem e minhas pernas ficarem bambas. 

 O pequeno ser escorregou pela beirada da cama e veio cambaleando em minha direção com os bracinhos esticados. Automaticamente me curvei e a peguei no colo abraçando com toda a minha força como se estivesse segurando o mundo em meus braços. 

Saímos do hospital e fomos para a minha casa, que agora era a nossa casa. Eu ainda não sabia ao certo o que fazer, não sabia o que responder quando ela começasse a perguntar pelo pai, não sabia se quando ela fosse mais velha deveria contar e ela que eu era na verdade a sua tia, a única coisa que eu sabia era que eu faria de tudo para ser a sua mãe. 

Escrito Por: Rosângela Tomas

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