Transgressão

Costumávamos caminhar pelo mundo de mãos dadas em um ato de transgressão aos valores da tradicional família brasileira. E era mais do que um simples ato de amor como nos casos de casais hétero-cis de propaganda de margarina. Era um manifesto. Era a dor de muita gente que vive com medo de amar, com medo de ser.
Muita gente nos olhava feio, como se não fosse certo. Alguns xingavam e ignorávamos. Já outros nos olhavam com fetiche – desses passávamos longe com medo, mas sem soltar as mãos. Vivendo em um mundo machista, preconceituoso e homofóbico nós queríamos a mudança, a aceitação, a possibilidade de viver sem medo por coisas tão simples.
Até aquele dia.
Naquele dia ela caminhava pelas mesmas ruas que costumávamos andar, e eu não estava lá. Quando ela me chamou eu respondi que estava com preguiça, mas ela foi. Usava seu anel de arco-íris – seu símbolo de compromisso com quem era, das batalhas, do direito de ser.
Talvez tenha sido isso. Talvez tenham sido as botas de combate. Talvez tenham nos visto juntas antes…
Mas hoje eu não estava lá. E cada instante que penso nisso dói. Você demorava e eu te liguei – telefone desligado. Você nunca desligava o celular. Peguei a primeira roupa que vi e comecei a refazer nossos passos de costume…
– NÃO – gritei e corri quando vi a ambulância, seus cabelos rosa balançando enquanto te atendiam, seu rosto pálido. Não pode ser. Vieram falar comigo, disse que era sua esposa. Você já havia partido. E eu não estava lá.
Escrito por: Jack

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