Uma corrida do acaso

Finalmente havia terminado mais um freela como fotógrafa, durante um evento empresarial.

Eu estava cansada e nem um pouco um afim de encarar dois ônibus até a agência que trabalho, para devolver o equipamento utilizado, então resolvi chamar um Uber.

Após uns 3 minutos de espera meu carro chegou, era um Fiat Uno.

– Oi, Guilherme? – perguntei ao motorista que me deu sorriso simpático.

– Isso, Lúcia, né?

– Sim.

– Quer colocar as suas bolsas no porta-malas? – perguntou se referindo ao meu equipamento.

– Se não for muito incomodo eu prefiro colocar no banco de trás e ir na frente com você.

E foi exatamente isso que fiz.

Durante o trajeto Guilherme e eu conversamos bastante sobre diversos assuntos, mas o que mais me chamou a atenção foram seus olhares pelo canto do olho. Constantemente ele me olhava, até mesmo nos momentos de silêncio, e por incrível que pareça eu não me senti incomodada, pelo contrário eu estava gostando, talvez pelo fato dele ter sido gentil desde o começo, e por ter ideias de vida muito similares às minhas.

– Falta uns 15 minutos para chegarmos ao seu destino, está indo pra casa? – perguntou.

– Ainda não, preciso passar na agência em que trabalho para deixar esse equipamento antes.

–  Se quiser posso esperá-la para levá-la em casa.

–  Eu iria adorar, mas vou ter que encarar o ônibus mesmo, não dá para pagar duas corridas no mesmo dia – soltei uma leve risada.

–  Eu não vou cobrar – disse parecendo sério.

–  Como não? É o seu trabalho.

–  Estou encerrando, essa será minha última corrida.

–  Então vai me dar uma carona, em troca do que?

– Em troca de nada, ué. Ou melhor em troca de irmos conversando e nos conhecendo melhor, isso se você quiser.

Não lhe dei mais resposta, apenas virei meu rosto para a janela e fiquei olhando os grandes prédios que moldavam as ruas enquanto refletia sobre a situação.

Assim que chegamos à agência antes que ele pudesse dizer algo perguntei:

– Você me espera? Creio que não vou demorar mais do que 10 minutos.

Pude ver o brilho em seus olhos enquanto me dizia que sim e mostrava onde estaria estacionado.

Rapidamente eu subi até o meu andar, guardei meu equipamento e fui até o banheiro com o intuito de retocar a maquiagem, mas desisti quando me olhei no espelho, se ele havia se interessado por mim assim, por que eu deveria me maquiar mais? Acabei fazendo o contrário, retirei toda aquela base que cobria meu rosto e passei apenas um batom leve.

Assim que entrei no carro, recebi o seu olhar de surpresa.

– Uau, você tem sardas – disse.

– Sim, eu tenho, isso te incomoda?

– Claro que não – riu – é que antes não dava pra ver, você fica mais bonita assim.

Passei meu endereço para ele e seguimos em direção a minha casa.

Eu me achava uma louca por entrar no carro com um completo estranho, mas algo nele tinha me agradado, e eu estava super afim dessa aventura, sim para mim era uma aventura.

Durante o caminho continuamos conversando e acabei descobrindo que ser motorista era apenas uma profissão passageira.

– Eu gosto mesmo é de cozinhar, terminei a faculdade de gastronomia, fiz meu estágio e agora estou em busca de um emprego fixo, mas o mercado anda muito difícil, então enquanto isso vou dirigindo.

– E o que você mais gosta de cozinhar? – perguntei.

– Eu adoro pegar o que tem na geladeira e fazer uma bela misturança, fazer do que as pessoas chamam de sobras um verdadeira prato de restaurante 5 estrelas.

Depois de mais uma meia hora de conversa, paramos em frente a minha casa.

Antes que eu pudesse tirar meu cinto, rapidamente Guilherme saiu do carro e abriu a porta para mim, confesso que fiquei surpresa com aquele ato em pleno século XXI.

– Bom, acho que depois de passarmos parte da tarde juntos no meu carro, eu acho que posso pegar o seu telefone no aplicativo e te ligar no final de semana, né?

– Claro, eu iria adorar.

Nós ficamos um tempo nos encarando, e absorvendo aquele silêncio constrangedor pré-despida, nenhum de nós tinha coragem de dizer tchau.

Quando ele estava prestes a se despedir eu tomei a frente.

– Eu não sei se te interessa, mas são quase 18 horas e eu tenho uma geladeira cheia de sobras.

Mais uma vez pude ver o seu sorriso bobo, e o brilho tomar conta dos seus olhos.

Sem dizer mais nada Guilherme me acompanhou para dentro de casa e nunca mais saiu.

 

Escrito por: Rosângela Carvalho

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